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terça-feira, 14 de setembro de 2010

Capítulo 15

HATING YOU
por Little Monster

               Ela nunca admitiria, nem pra si mesma, mas a cena no corredor a havia deixado um pouco ressentida. Recordou-se da expressão de triunfo de Felicia, seus lábios brilhantes de gloss se movendo num mudo ”Perdedora idiota”. Sentiu algo apertar dentro do peito. Raiva. Limitou-se a suspirar e tentou afastar o pensamento, e adivinhe só: Não conseguiu.
               Por que Chuck estava daquele jeito? Será que tinha sido a detenção? Não... Não seria a primeira detenção dele. Só podia ser o que Snape disse, e sem nem precisar fechar os olhos, podia ouvir perfeitamente a voz ácida do professor.
               ”Espero que seus pais fiquem bastante orgulhosos”.
               Era isso. Na Sala Comunal, quando ela havia perguntado sobre como era sua vida em casa, ele mudara de assunto. Não mencionara uma única palavra sobre a família, e jurava que pôde ver sua expressão mudar quando o professor soltou a frase. Vou falar com ele, vou deixar as bobagens da Felicia de lado, acho que ele está com problemas.
               Olhou seu reflexo no espelho, analisando seu rosto. Acho que está bom assim, não sou nada demais, mas compenso isso no cérebro. Pegou o casaco que estava em cima de sua cama e já estava saindo quando viu Kaisha de braços dados com Alice, suas companheiras de quarto.
               - E aí gatona? – Kaisha jogou os braços em cima de Gabrielle e a apertou num abraço caloroso. Gabrielle riu.
               - Tudo bem? – sorriu, piscando os olhos castanhos para as duas.
               - Aonde você vai desse jeito? – Kaisha sorriu, dando uma assoviada de aprovação. – vestidinho rosa? – Arqueou as sobrancelhas – desde quando você usa rosa?
               - Onde você acha? – Alice sorriu maliciosamente para Kaisha, cutucando-a com uma cotovelada. – Parece que alguém vai dar uns amassos com um certo monitor gatinho.
               Gabrielle corou.
               - Meu deus gente. Até parece... – revirou os olhos, sentindo-se totalmente sem graça.
               Kaisha Brent dividia o quarto com Gabrielle desde o primeiro ano, era uma garota muito bonita, sua pele era negra e reluzia maciez, o corpo era esguio e esbelto, de medidas perfeitas. Possuía cabelos longos, lisos e negros, que emolduravam o rosto feminino, de lábios cheios perfeitamente moldados, os olhos redondos e de cílios grandes. Parece uma deusa egípcia. Pensou Gabrielle.
               - Aham Elle, a gente acredita. – e Alice deu uma arranhadinha no ar. – graur.
               - É, você sabe que pode se abrir com a gente; a não ser que já esteja se abrindo pra outra pessoa.
              - Aposto que ela anda se abrindo bastante ultimamente. – completou Kaisha
              - Quem não se abriria com um menino daquele?
             - Ow, ow ow, que negócio é esse? As coisas não funcionam assim. Sosseguem meninas.
              - Há, não venha você com essa. – Kaisha estreitou os olhos enquanto colocava a mão na cintura.
              - Conta pra gente... Ele beija bem?
             - Cala a boca Alice! – Gabrielle não conseguia mais segurar o riso, as duas eram demasiadas engraçadas.
              - Tudo bem... Não precisa ser agora, mas quando voltar vai ter que contar pra gente, tudinho... Está ouvindo? – Alice se jogou na cama ao lado da de Gabrielle
             Alice Vermount também dividia o dormitório com Kaisha e Gabrielle desde o primeiro ano, estava sempre alegre, tinha um jeito meigo, até meio infantil. Seus cabelos eram curtos, de um loiro queimado quase castanho. Os olhos estavam sempre mudando de cor, ora azul turquesa, ora verde escuro, era uma menina muito bonita.
              - Tudo bem, eu conto. – deu de ombros como se desistisse, derrotada pelas amigas.
              - Aháááá, assim que se fala meu bem! – Kaisha deu um pulinho decidido. – Agora vai lá fora e bota pra quebrar! Mostra pra ele quem-é-você! – E para dar ênfase à suas últimas palavras, Kaisha estalou os dedos. – Uhun, manda a ver.
              - Mandar a ver? Acho que a gente só vai caminhar por aí. – Gabrielle arqueou as sobrancelhas, assustada. Nunca se acostumara com o jeito intenso de Kaisha.
              - Então mande a ver no andar, gata! Assim, e assim. – mexeu os quadris perfeitos – arrase, é assim que se faz, sim senhora! – E estalando os dedos mais uma vez, jogou os longos cabelos negros para trás.
              - Ahm... Ok. Melhor eu ir.
             Alice ria descontroladamente olhando a cara de Gabrielle. Manda a ver meu bem! Alice gritou depois de um estalar de dedos, imitando Kaisha com perfeição, antes de voltar a gargalhar como louca. Gabrielle a acompanhou no riso.
              - A senhora está me imitando? Aaaah não querida, o negócio aqui é cem por cento original. – deu um tapinha no quadril.
              Gabrielle ainda estava rindo enquanto saía, mas ainda a tempo de ver Kaisha se jogar na cama de Alice e começar a golpeá-la com um travesseiro, enquando a menina ria ainda mais alto. Trombou em Emily no caminho pra saída.
             - Ai... Ei, oi Elle... Onde você vai? – Emily ajeitou os óclinhos, parecendo muito estranha com suas duas tranças bagunçadas caídas sobre os ombros.
             - Ah, desculpe, não te vi aí.
             Emily pareceu ansiosa. Deu uma olhada em Gabrielle e deixou que um sorrisão malicioso tomasse conta dos lábios.
             - Não me olhe assim Emily. Emily, pare com isso. Sério.
             - Bom encontro. – Emily piscou, mas quando passou pela amiga, Gabrielle pôde ver a expressão de infelicidade no rosto de Emily. Deve estar pensando no porque de ela não estar indo saindo com Wes agora.
             Sentiu-se mal pela amiga, e decidiu que ia falar com Wes mais tarde. Passou correndo pela mulher gorda, ignorando completamente um time de quadribol inteiro que voltava todo encardido pra sala comunal, liderado por um Harry Potter muito cansado e vermelho. Pensou ter visto um menino olhar pra ela com admiração enquanto passava, mas também o ignorou.
             Correu pelos corredores agora vazios, dando uma breve pausa para observar como de costume seu quadro favorito. Era um quadro de moldura dourada, onde no fundo uma linda fada de cabelos ruivos chorava, sentada numa rocha perto de um poço. O chão da pintura era totalmente de pedra, uma pedra tomada por folhas, plantas e musgo lutando para crescer entre os espaços. Havia árvores no fundo, como se o espaço de pedra fosse uma clareira desprovida de vegetação abundante, e mais à frente um vulto observava a fada de asas rosa-claro.
             Gabrielle suspirou, era o quadro mais lindo que já vira na vida. A fada forçou um sorriso ao vê-la, gostava dela pelas freqüentes visitas que fazia, e até deu uma acenadinha.
              - Você está bem? – perguntou à fada.
             A figura delicada apenas assentiu com a cabeça, voltando a cobrir o rosto com as pequenas mãos brancas.
             Aaah, estou atrasada, não posso ficar aqui parada vendo essa fadinha chorar, ela deve estar triste assim praticamente desde que Hogwarts foi fundada, não posso fazer nada. E voltou a correr.
              Viu Jimmy no mesmo lugar onde o encontrara pela primeira vez para ir à Hogsmeade. Dizer que o garoto estava lindo seria eufemismo, ele estava deslumbrante.
              Se aproximou dele, tentando acalmar a respiração ofegante de correr, e sorriu quando Jimmy pegou em sua mão.
                - Você está linda...
                - Não estou não.
               Ele riu e a conduziu até às grandes portas do castelo, onde Filch os fuzilou com o olhar.
                - Jimmy... Onde nós vamos? – Olhou para ele com insegurança.
                - Você vai ver daqui a pouco...
                - Onde Dumbledore está com a cabeça? Deixar essas pestes, esses descarados saírem assim à noite? Como se fossem donos do castelo, como se a presença deles aqui valesse alguma coisa, isso é ridículo. Acho que o velho finalmente caducou, isso é um absurdo... Um...
                - Boa noite Filch. – Jimmy acenou, mas só recebeu um gesto obsceno do zelador.
               Saíram para a noite, agora a menina sabia por que precisaria do casaco, havia uma brisa gélida soprando ali, mas tirando isso a noite estava linda, com uma Lua gigante no céu sem estrelas. Andaram um pouco e num cantinho no meio do nada havia uma pequena mesa redonda iluminada por vários pontinhos luminosos, que conforme se aproximavam mais da mesa, se mostravam borboletas brancas, lindas e reluzentes.
                A mesa estava arrumada, e um par de velas brancas no meio a deixava ainda mais linda, por mais que seus pratos fossem de porcelana, e os talheres de ouro, foi o sorriso de Jimmy em ver que a menina estava encantada que fez com que ela mesma sorrisse. Meu deus... Ele é mesmo um cavalheiro de armadura dourada.
                 Jimmy puxou a cadeira para que ela se sentasse.
                 - O que deu em você Jimmy? - riu-se
                 Ele não disse nada, só pegou a mão dela e depositou ali um beijo.
                 Gabrielle tentava encontrar adjetivos para classificar sua opinião sobre o que Jimmy havia feito. Era simplesmente... Perfeito. Parecia um conto de fadas, com cada detalhe meticulosamente planejado. A toalha de mesa era tão branca... Com os pequenos pontos luminosos em volta, pétalas de rosas amarelo-claro no gramado em volta deles, tudo parecia reluzir, inclusive Jimmy.
                  - Você... Gostou?
                 Jimmy estava nervoso, e apertava os joelhos por baixo da mesa, lançando-lhe olhares ansiosos.
                  - Está perfeito.
                 O menino soltou a respiração que prendia por nervosismo, e se permitiu sorrir novamente.
                  - Eu não quis... Parecer exagerado, sabe?
                  Não quis?
                 Gabrielle balançou a cabeça negativamente, e sorriu, radiante. Foi quando Jimmy estendeu a mão por cima da mesa e pegou a dela.
                  - Tinha que ser especial... – seus olhos azuis estavam extremamente lindos e puros devido à luz dourada das velas – Assim como você é especial pra mim. Nunca me senti assim com ninguém.
                  Gabrielle sentiu algo pular dentro do peito, mas nada disse, só conseguiu sentir o calor da mão dele, e o frio da noite.
                 - Deve ter tido muito trabalho pra conseguir fazer isso eu... Sério, eu não mereço tudo isso, não precisava ter...
                 - Não seja boba – interrompeu – É claro que merece, você é uma garota incrível.
                Gabrielle temia o que estava prestes a vir, afinal... Se ele tivera o trabalho de fazer tudo isso por ela, é porque sentia algo realmente forte, e não sabia se estaria preparada.
                 - Eu só queria que você soubesse que nesses sete anos eu nunca vi ninguém como você... Cada segundo que passamos juntos significou muito pra mim – acariciou as costas de suas mãos com o polegar, fitando seus olhos castanhos. – Queria que você soubesse... Que me sinto um bobo perto de você, e que não há nada que se possa comparar...
                 - A esse belo traseiro... Meu deus hein. Como você olha pra um cara desses tendo todo esse material, meu bem?
                 Gabrielle percebeu que seu queixo havia caído ao ouvir o comentário. Jimmy tapava o peito com a mão, olhando para a mesma com desespero nos lindos olhos azuis.
                 - Porcaria de broxe... – amaldiçoou.
                 - Porcaria de broxe não... Meu nome é Johnny!
                - Gabrielle... Me desculpe, esqueci de tirar antes de vir pra cá, eu e... Johnny estávamos conversando antes de eu sair.
                 - O cara é um maluco, só falta um pôster seu do lado da cama, e o pior é que ele não cala a boca, fica Gabrielle daqui, Gabrielle dali, já estou ficando puto...
                Jimmy estava mais vermelho do que um tomate. Arrancara o broxe do peito violentamente e o metera dentro do açucareiro. Gabrielle arqueou as sobrancelhas e segurou o riso, pensou no quanto aquilo devia estar sendo horrível pra Jimmy, e dessa vez quem procurou pelas mãos dele foi ela.
                 - Não ligo pro Johnny, quero ouvir o que você estava dizendo...
                 Mas nem ela mesma sabia se queria ou não.
                 - Eu... Nem sei mais o que falar, não sou bom com essas coisas... – Jimmy mantinha os olhos na toalha de mesa, e Gabrielle pôde jurar que os olhos dele estavam marejados, mas poderia ser só impressão.
                - Então não diga nada... Não precisa, você já demonstrou o suficiente. – ela sorriu, querendo que Jimmy tirasse aquela expressão triste do rosto a qualquer custo.
                Jimmy não tocara mais no assunto durante o tempo que ficaram ali, quando já estava ficando tarde, tomou Gabrielle pela mão e a acompanhou até o Salão Principal.
                - Então é isso, boa noite... E me desculpe.
                Ele sorria tristemente. Ainda segurando a mão da menina, ele se curvou e lhe deu um beijo no rosto, e em seguida virou as costas pra partir. Mas Gabrielle o puxou pela mão.
                - Não.
                - Não? – havia confusão em seus olhos, e curiosidade.
               - Não acredito que você vai deixar um broxe bobo estragar a nossa noite desse jeito... Ei. – tomou o rosto de Jimmy entre os dedos e ergueu seu rosto.
                Ele suspirou, e se esforçou pra abrir um sorriso maior: tem razão. Obrigado por me acompanhar essa noite. Mas ela se sentiu lisonjeada, ela não acreditava que um menino tão fofo se interessara por ela. Não tinha palavras, apenas gestos, que poderia demonstrar o quanto gostara da noite, apesar de tudo.
                Puxou Jimmy pela gola das vestes e selou seus lábios nos dele. Não soube quanto tempo ficaram ali, só soube que ele a abraçava calorosamente pela cintura, e que suas mãos já estavam no cabelo dele.

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                 Gabrielle entrou na Sala Comunal com um sorriso triunfante nos lábios, ela passou reto por um monte de pêlos alaranjado que grunhia em cima da mesa, Bichento. Foi ao dormitório feminino, pegou seu diário, um tinteiro e uma pena, e voltou para a Sala Comunal. Pôs-se a escrever animadamente empoleirada no sofá.

                 Querido diário,

                 Acabo de voltar de um encontro com Jimmy, que como sempre foi extremamente atencioso, não podia ter sido mais romântico. Ok, eu não sou romântica, você sabe disso, mas o que eu vi naquele gramado hoje pode começar a mudar meus conceitos sobre romantismo. Foi tudo perfeito, a não ser pelo broxe bobo – que se autodenomina Johnny - que eu dei pra ele na última ida à Hogsmeade...
                  Na hora de ir embora não sei o que aconteceu comigo, Jimmy estava arrasado por causa do Johnny e talvez estivesse pensando que eu não tinha gostado da noite, foi então que eu o beijei... Nosso primeiro beijo, no Salão Principal.

                 "Nosso primeiro beijo..." Pensou a garota. Era pra ter sido o meu primeiro beijo.
                 Suspirou longamente, sentindo a frustração passeando pelas suas veias. Folheou o diário e parou numa página;
                  ...Ou seja, meu dia foi uma porcaria. Não acredito que Felicia pôde ser tão ridícula, eu só queria que ela me ouvisse de vez enquando, só queria poder poupá–la do que eu tenho certeza que vai passar se continuar com Chuck. Mas não sei do que estou reclamando, sempre foi assim, sempre, desde o primeiro ano, desde quando éramos apenas crianças, dava pra sentir que ela estava sempre disputando comigo, disputando por coisas que eu nem sabia o que eram.
                  É muito... Nem sei o que dizer quanto a isso... Eu nunca quis nada de Felicia, nunca desejei ser mais bonita ou mais rica, nunca quis nenhum menino que ela teve, e não quero agora. Queria que ela visse, só por uma vez o quanto eu a amo, e que se um dia ela teve uma amiga de verdade, essa amiga fui eu. E mesmo não querendo admitir, dói muito saber que apenas um menino bobo pôde causar tanto estrago entre nós.
                 Tudo bem, eu explodi com ela, acho que foi o acúmulo dos anos, eu não deveria ter gritado... Agora é tarde demais. Principalmente quando no impulso da minha raiva eu beijei o Chuck. Não, não me olhe assim, não foi porque eu estava querendo beijar aquele... Hm. Foi simplesmente pra deixar Felicia com raiva, e acho que consegui, porque ela sumiu choramingando pro dormitório feminino.
                  É, foi uma coisa muito baixa de se fazer, e sei que quando minha raiva passar totalmente, eu vou me arrepender, porque aquele foi meu primeiro beijo. É, eu tenho dezesseis anos e nunca havia sido beijada antes, qual é o problema? Bom, eu não fui beijada pra falar a verdade, porque quem o beijou fui eu. E ele gostou. Acho que eu também gostei. Mas não quero mais pensar nisso, acho que vou começar a chorar.

                 Gabrielle fechou os olhos e apertou o punho. Sentiu uma onda quente de vergonha subir pela espinha ao ler o que tinha escrito. Lutou contra a lembrança: Felicia parada perto dos dois, pasma em toda sua beleza, enquanto ela beijava o menino que a amiga gostava. Mas o mais impossível de repelir era a sensação dos lábios dele, da pele macia, do cheiro bom que ele tinha, e de como ele tinha retribuído aquilo. Sentiu os pelos do braço se arrepiarem, e teve nojo de si mesma ao se pegar comparando Chuck e Jimmy, e Chuck levara a melhor.
                  - Hmm... – ouviu alguém de voz sonolenta resmungar.
                 Chuck se erguia de trás de um amontoado de almofadas perto da lareira, com o cabelo desgrenhado, a blusa antes impecável, amarrotada. E um jeito sonolento, que quem não o conhecesse, naquele momento, o acharia a criatura mais agradável do mundo.
                  - Elle? – Ele estreitou os olhos, se esforçando para enxergar a menina, já que a única fonte de luz era a lareira.
                  Gabrielle levou um susto ao ver o rapaz se materializar da lembrança para a sua frente, amavelmente desgrenhado e sonolento.
                   - É, sou eu. Meu deus Chuck, por que você não vai pro dormitório?
                   - Não consigo dormir. – ele riu, tristonho, e se afundou nas almofadas novamente.
                   - Você tá bem?
                   Ela media as palavras, não queria parecer preocupada, ainda ressentida na forma com que ele a tratara mais cedo. Ouviu um riso breve e irônico.
                   - O que está fazendo aqui a essa hora? – ele perguntou, lutando pra se colocar de pé e ir até ela.
                   - Só escrevendo. – fechou o diário e olhou pra ele com a expressão séria.
                   - Você vem aqui pra escrever? Tão tarde assim? – ele sorriu – Isso é um diário?
                  Os olhos de Chuck passearam pela capa vermelha do livro enquanto seus olhos se estreitaram maliciosamente ao se voltarem para Gabrielle.
                   - O que tem aí?
                   - Bobagens de garota. – ela deu de ombros, lutando pra não se chutar quando a própria mente recitou: quem o beijou fui eu. E ele gostou. Acho que eu também gostei.
                   - O que você escreveu sobre mim?
                   - Não tem nada sobre você aqui. – mentiu.
                  - Elle, meu amor... Você mente muito mal. – ele mordeu o lábio inferior, se inclinando pra ela, passando o braço por trás de sua cabeça no sofá. – Por que você não recita alguma coisa no meu ouvido?
                   Ela prendeu a respiração, ele estava perto demais.
                    - Vou dormir, já terminei por aqui.
                    - Chuck? Cadê você? – ouviu uma voz irritantemente familiar.
                    Felicia se levantara de trás do mesmo monte de almofadas que onde Chuck surgira a minutos atrás, também desgrenhada, e com a blusa desabotoada, exibindo um bonito sutiã rosa claro, de rendinhas.
                    Ao ver Gabrielle parada ali, Felicia olhou para Chuck com indignação, esquecendo-se totalmente de ter acabado de acordar.
                    - O que ela está fazendo aqui? – e fechou a blusa bruscamente.
                   Chuck lançou um último olhar malicioso à Gabrielle, e sorriu, como se dissesse: Desculpe, esqueci de avisar que sua ex melhor amiga caiu no sono aqui por perto depois de ficar nos amassos comigo.
                     - Nada. Não vi vocês aí ou não teria vindo pra cá.
                    Censurou Chuck com os olhos e evitou olhar para Felicia, sentia algo arder dentro de si, e toda a felicidade que sentira por causa de Jimmy se esvaíra. Não poderia agüentar nem sequer mais um minuto com aqueles dois na Sala Comunal. Então juntou suas coisas e correu pro dormitório feminino. Ouviu os suspiros leves e sonolentos de Kaisha, Alice e Claire. Guardou o diário na gaveta da pequena cômoda, se despiu o mais rápido que pôde e se afundou nos lençóis e cobertores pesados, abraçou com força um travesseiro e sem saber por que, chorou.
                    Talvez fosse a frustração de ter perdido a amiga tão injustamente, quando só queria o bem dela, e suportar aquele olhar de desprezo, o ódio fluindo dos olhos azuis de Felicia, o nojo na voz dela, depois de tudo o que passaram juntas. Sentiu raiva de Chuck por gostar daquilo, odiou tudo nele: aquele sorriso idiota, aqueles olhos perversos, aquela voz que a fazia se arrepiar, a tranqüilidade como lhe dava com as outras pessoas, sabendo que as estava intimidando, se odiou por gostar do beijo dele, e odiou Jimmy por ser tão bonzinho e perfeito, e se odiou mais ainda por não sentir por ele o mesmo que sentia por ela.
                   Ódio, ódio, ódio. Foi tomada pelo sentimento, não conseguindo dormir, repassando Felicia desgrenhada e exposta, Chuck sorrindo sombriamente. Se sentiu traída, e reciprocamente odiada. Fechou os dedos nos lençóis. Vocês vão me pagar. E dentro dela, naquele momento, pôde sentir uma mudança de sentimento, não aturaria Felicia, não aturaria mais ninguém.

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